Viragem das horas vagas

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engrenagem dum piscar de olhos

tudo aquilo que assegure
a percepção da realidade 
é bem visto,
mas olhado de lado
arrogantemente.
haverá sempre um desdém 
intrínseco num acordar
ou nas falsas questões
que tanto perseguimos
nos intantes 
antes 
de pernoitar sobre um problema.
na hora de pagar o descontentamento,
renasce o fogo que se apagou
na véspera de se fazer noite
nas ruas de sempre.
a solidão abraça os gemidos ocos
das estátuas cabeludas
e poisa um pó
após 
a passagem grotesca dos que correm
para lado nenhum,
que se infiltra e desestabiliza
a engrenagem dum piscar de olhos.
crescem pontes toscas
em jeito de ode à conveniência 
mas pouco se condensam 
as estações do barulho são 
que se dissipa no rescaldo 
do tempo.

pelo menosprezo que não inspiro,
permanecerei por cima das danças 
até que por fim se concretize um dia.
por enquanto agarro um cigarro
e recapitulo a realidade 
que não expiro –
p'lo meio dum poema irreflectido,
virás até mim de vez 
com calor embrulhado 
nas mãos.
e desapareceremos
por entre o céu nublado 
de finais de dezembro.

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